Adquiri hoje (finalmente!) o "Fado Negro" na outra
banda da Capital e no regresso a casa, eu e o meu agregado viemos a degustar
esta iguaria. Peço desculpa pelos paralelismos com a gastronomia, mas a verdade
é que já andava faminto, há alguns meses, para colocar o repasto a girar no
prato (do leitor de cd).
A viagem de regresso ao fantástico mundo rural, onde tenho o privilégio de
viver há 5 anos, foi feita num ambiente expectante. A bebé adormeceu
tranquilamente. O mais velho de três anos, enquanto trauteava uma espécie de
scat para crianças, comentou “este senhor canta sem fazer força”. A Mãe (minha
mulher), surpreendida com a sonoridade e conceito do projecto, questionou-me
sobre como é que eu descobria estas coisas, ao mesmo tempo que lamentava o
facto de poucas pessoas terem acesso, do ponto de vista informativo, à boa
música que se faz por cá.
Ouvi atentamente as reacções mas não comentei. Lá continuei a conduzir como se
a chuva que batia no vidro dianteiro fosse parte integrante dos temas que
deslizaram dentro de um automóvel silencioso de ruído humano no seu interior.
Não sei se é o cérebro que nos faz crer que a natureza se integra na música ou
se é a boa música que não interfere na natureza, mas a verdade é que a viagem
se fez numa confortável harmonia e sem se dar pelo passar do tempo e dos quilómetros.
Estava satisfeito, orgulhoso, calado e ansioso por dar o jantar aos pequenos, pô-los
a dormir, despachar umas coisas pendentes, para depois poder ouvir "com
olhos de ver" o “Fado Negro”. Foi o que fiz.
Enquanto estou a escrever o que agora lêem, estou
acompanhado pelo último albúm/cd da Jacinta (aconselho), como se eu fosse um
hiperactivo que necessita de um calmante depois de tomar um tranquilizante.
Enfim, não sei muito bem como explicar o quanto foi bom ouvir o "Fado
Negro" e não queria deixar arrefecer esta emoção antes de escrever aqui
algo que, seguramente não vai ser integralmente compreendido mas que, nada mais
é que uma manifestação de respeito e admiração por um homem que, apesar de uma
notória evolução/adaptação/recriação, mantém uma coerência inigualável desde
que em 1985 o meu Avô colocou no "gira discos" um álbum de nome
"Discretamente", em que na capa decorria uma espécie de reunião
formal e ao fundo estava alguém "discretamente" a beber vinho
(pensava eu) de um garrafão empalhado.
Nessa altura o meu Avô, em pleno Ribatejo minifundiário,
disse-me que se eu queria descobrir o Brasil e África, sem ter que sair de
Portugal, poderia faze-lo viajando ao som dos álbuns de Fernando Girão, um
filho da cultura lusófona que tinha, como poucos, ousado juntar sonoridades que
nos fazem perceber qual o seu perfil e percurso sem precisar de ler a
Biografia. Alguns anos mais tarde passei não só a ouvir a música mas também a
interpretar as palavras por detrás de cada nota.
Já me alonguei e por isso vou terminar dizendo que não lhe
vou dar os parabéns, mas vou dar os parabéns a um país que tem a sorte de, sem
nada ter feito por isso, manter no seu pecúlio musical alguém como o Fernando
Girão que, ao contrário da maioria dos músicos e compositores portugueses da
actualidade, ao invés de sofrer de Lusofobia, espalha o vírus da Lusofonia um
pouco por todo o mundo.
Bem-haja
PS: Sabe por onde anda o Tó Leal?