Um disco que rivaliza com as melhores obras do progressivo dos anos 70?
Sim é a resposta para a pergunta. O Saga foi uma banda portuguesa dos anos 70 (não confundir com as homônimas da Holanda e da Suécia, e nem com o Saga, também português, que faz um neo-progressivo) liderada pelo multi-instrumentista José Luís Tinoco. O conjunto lançou apenas um disco, Homo Sapiens, em 1976, mas foi um dos melhores lançamentos da década. Em Portugal, creio que vence até mesmo o aclamado ‘10000 anos depois entre Vênus e Marte’, de José Cid.
O disco, apesar de não ser propriamente um trabalho conceitual, possui um eixo único, que versa sobre diferentes aspectos da vivência de um ‘homem sábio’: da sua origem; da mesquinhez; de tirar outras vidas sobre o pretexto da guerra e do poder; da industrialização e mecanização do cotidiano; da angústia de sua existência e da morte; das ciências ocultas e as da mente; da metafísica.
Musicalmente, o álbum é um típico progressivo sinfônico dos anos 70, mas com um trabalho literário e musical muito forte. Tinoco nos dá um excelente e variado trabalho de teclados e piano ao longo de todo o disco, contribuindo grandemente para o caráter sinfônico da obra. Um ponto muito forte do disco (e que falta, por exemplo, no disco de José Cid) é a participação de destaque de outros instrumentos, especialmente do baixo e bateria/percussão: o primeiro é muito presente, bem tocado e atua efetivamente na construção dos climas do disco; o segundo, apesar de longe de ser virtuoso, é bastante diverso e interessante. Os instrumentos de sopro (flauta e saxofone), apesar de terem um destaque mais limitado, participam de forma ativa na modificação do cenário musical da obra: ora acentuando o ambiente sinfônico, ora diversificando o conteúdo para folk, fusion e até mesmo toques de canterbury.
Contudo, creio que o principal destaque do disco seja a parte vocal. Os vocais são muito bem feitos e atuam decisivamente para a construção dos arquétipos musicais, faixa por faixa. Eles se subdividem em três categorias: vocal solo masculino, em que há boa modulação do tom para formatar o clima da música. É geralmente agressivo e cativante; vocal em coral (com participação masculina e feminina), que participa das porções mais vibrantes do trabalho, preenchendo com maestria os espaços da música; e, por fim, o vocal declamado, onde há narração pura das letras em algumas faixas. É uma voz imponente e grandiloqüente, acrescentando novas dimensão e densidade à obra. Falando em letras, as desse disco são fantásticas, muitas delas escritas em forma de poema e com conteúdos muito interessantes.
6º Dia abre o disco com teclados em tom etéreo, que se intensifica até a entrada de baixo, bateria e vocais (acompanhados do sax). Após essa introdução, a canção parte para vocais e coro, em tom crescente, acompanhados por um instrumental envolvente. Na segunda metade há um clima mais tenso, com entrada da flauta e depois um teclado solitário que caminha para a conclusão instrumental da faixa, no melhor estilo fusion, caracterizado pelo timbre de teclado característico e pela forte presença de baixo e bateria.
Filius Domini, Filius Hominis começa num clima melancólico, com participação de vocais fortes e teclados, intercalados por passagens viajantes de saxofone. Então entra o coral dando tons vibrantes; em seguida, há o retorno para o vocal solo. Boa presença do baixo.
Hiroxima é a primeira das faixas que possuem a letra declamada. Fazendo referência à bomba atômica, o narrador com sua voz imponente (e até insana) é acompanhado por um fundo sonoro macabro (teclado e baixo em destaque), que no final da canção fica em solo, numa espécie de caos musical. Sem dúvidas, possui um ótimo clima.
Cantiga de Imigo possui um forte sentimento de melancolia. Começa de forma até agressiva e com alguns interlúdios mais agitados, mas a participação vocal aqui denota o clima mais lúgubre da canção, especialmente quando da participação solo da voz. Destaque também para a letra da canção.
Invasão entra com teclados e baixo ditando o ritmo. Nessa faixa, a parte vocal em coro é intercalada com a parte declamada da letra. O coral traz grande impacto na música (especialmente quando cantam: “Vejam! É um anjo de aço!”), e também há um vocal solo bem agressivo. No final, um pequeno interlúdio de piano. Aqui, o trabalho da bateria é bem interessante. A letra também é destaque.
Talvez a melhor faixa do disco,
Guerra conta com excelentes letras também. Começa agitada, com bateria, baixo, flauta e passagens de teclado. Depois cai num ritmo cadenciado conduzido por trabalho percussivo e baixo. Há alternância de um vocal solo (agressivo e até sádico) com um coral. Ainda há uma porção mais agitada com piano e voz solo, que retorna para a parte mais cadenciada. A canção termina de forma muito enérgica, com os vocais em coro muito vibrantes.
Carta é mais uma faixa com letra declamada, mas sem intervenção musical. Possui mais uma letra fantástica, e propicia uma quebra muito interessante no disco.
No 20º Aniversário da Morte do Poeta começa com um teclado bem viajante, que culmina com a entrada dos demais instrumentos (especialmente flauta, baixo e bateria), numa introdução muito interessante. Essa é uma canção muito bonita (e até certo ponto melancólica). Os vocais mais uma vez roubam a cena, dando um clima todo especial à faixa.
Aprendiz de Feiticeiro é uma faixa bastante agitada, com alternância do vocal solo-coral em cada estrofe, e no meio de cada ciclo, um interlúdio musical com resquícios de sonoridade
canterburyana. Mais uma vez, excelente trabalho de percussão e baixo. Possui uma letra bem interessante também. No final, um bom solo de sax.
Dunas começa mais uma vez com a letra narrada. O restante da faixa é um instrumental bem etéreo, com boa participação de saxofone e piano, dando também a impressão de uma sonoridade das bandas de Canterbury.
Enfim, um trabalho que tem tudo para agradar o amante do rock progressivo sinfônico. As idéias são excelentes e a atuação musical muito firme. O sotaque, que poderia pesar para o lado negativo, na verdade faz o oposto, se encaixando perfeitamente à música e amplificando os limites sonoros do trabalho.
Após 38 minutos do mais puro deleite musical, o que temos vontade de fazer é começar a viagem novamente. Obviamente, os que não gostam do progressivo sinfônico não encontrarão motivos para apreciar esta obra, mas, sinceramente, o azar é deles, pois não sabem o que estão a perder.